AS MELHORES SEQUÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS
AS MELHORES SEQUÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS
*Magno Ponte
" O que a memória ama, fica eterno... é
que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como
vento, a memória traz de volta o que realmente importa, eternizando
momentos." ( Adélia Prado)
O
Cinema como arte e entretenimento nos preenche de emoções genuínas que nos
impactam de imediato e depois através de um filtro muito particular e
individual, se transformam em lembranças prazerosas, que nos acompanham e
continuam sensibilizando.
Sempre
que assistimos apresentações especiais sobre a história do Cinema e suas obras
inesquecíveis, nos deparamos com instantes fílmicos consagrados que povoam o
imaginário popular, são renovados com o passar das décadas e estão eternamente
associados à sétima arte: A Lua animada de Meliés ( VIAGEM Á LUA – Melies,
1902); A odiosa representação da Ku Klux
Klan ( O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO – Griffith, 1915); O massacre russo na
escadaria de Odessa ( ENCOURAÇADO POTEMKIN – Eisenstein, 1925); Clark Gable e
Vivien Leigh atravessando de charrete a cidade de Atlanta incendiada, na guerra
civil americana ( E O VENTO LEVOU – Fleming, 1939); O desenlace de Humphrey
Bogart e Ingrid Bergman e um avião que parte ( CASABLANCA – Curtiz, 1942) ; A
partida de xadrez entre o cavaleiro e a morte ( O SÉTIMO SELO – Bergman,
1957); A aurora do Homem, com a
descoberta do osso como arma e a fusão posterior de sua imagem com a de uma
nave especial, ao som de “Assim Falou Zarathustra”, de Strauss ( 2001, UMA
ODISSÉIA NO ESPAÇO – Kubrick, 1968); Uma mulher imensa, mergulha o rosto do
rapaz em seus enormes seios até quase sufocá-lo ( AMARCORD – Fellini, 1973); O
confronto seguido de uma conversa filosófica entre o humano Harrison Ford e o
replicante Rutger Hauer ( BLADE RUNNER – Scott, 1982); A emoção de Fernanda
Montenegro num ônibus, escrevendo uma
carta de despedida para o menino que deixara dormindo e que ao acordar lhe
procura desesperadamente ( CENTRAL DO BRASIL – Salles, 1998); A visita do
coronel nazista à família francesa que escondia judeus em sua fazenda (
BASTARDOS INGLÓRIOS – Tarantino, 2009);
As
mentiras ensaiadas pela família pobre para ter acesso a uma mansão na Coréia do
Sul, até descobrir que tem que competir com outra família no posto de parasitas
( PARASITA – Joon-Ho, 2019). Estas cenas são icônicas e sempre repercutidas,
assim como as fotos de Carlitos com seu chapéu coco e bengala, Marilyn Monroe e
seu vestido esvoaçante, Marlon Brando de calça jeans e jaqueta de couro e Fred
Astaire bailando com Ginger Rogers...
Li
há alguns dias, uma crônica do saudoso crítico Geraldo Mayrink (Das telas para
a memória - Brilho eterno de uma mente com lembranças, publicada no Diário do
Comércio em 2006) na qual ele elenca, com brilhantismo, a sua lista de grandes
momentos, que aqui apresento parcialmente, com seu texto original:
“
O cinema está cheio dos chamados “momentos privilegiados”, como os chamou o
escritor James Joyce, quando tudo transcende além de seus contextos. Aqui estão
alguns deles no cinema, entre músicas e lágrimas, além de outros sentimentos:
– Annie Girardot abre os braços como
crucificada para que Renato Salvatori a esfaqueie e mate em Rocco e Seus Irmãos
(1960), de Luchino Visconti.
– Jack Lemmon vestido de mulher
revelando ao seu pretendente por que não pode se casar com ele, ouvindo como
resposta “Ninguém é perfeito”, em Quanto mais quente melhor (1959), de Billy
Wilder.
– Marcello Mastroianni, em sua
decadência final, encara numa praia um grande e misterioso peixe em A doce vida
(1960), de Federico Fellini.
– A câmera se afasta do porta-malas de
um carro, onde há uma bomba, sobe e passa por prédios e o carro enfim explode
diante de um posto de gasolina, tudo numa tomada sem cortes em A marca da
maldade (1958), de Orson Welles.
– Dorothy Comingore canta ópera sem
talento, composta por um maestro talentoso, Bernard Hermann, ante holofotes e
plateia atônita, num momento esfuziante em Cidadão Kane (1941), de Orson
Welles.
– John Wayne, racista feroz, quer
matar sua sobrinha meio índia (Natalie Wood), mas se arrepende, levanta-a nos
braços e diz: “Vamos para casa”. Em Rastros de ódio (1956), de John Ford.
– Gene Kelly se molha todo, sapateia e
levanta a voz em Cantando na chuva (1952), dirigido por ele mesmo e Stanley
Donen.
– Rita Hayworth tira as luvas, canta,
dança e enfeitiça a plateia em Gilda (1946), de Charles Vidor.
– James Dean leva dinheiro e chora aos
pés do pai, que o repele em Vidas amargas (1955), de Elia Kazan.
– Janet Leigh entra num chuveiro e é
esfaqueada e morta por alguém, caindo de olhos abertos e deixando seu sangue
escorrer num ralo, em Psicose (1960), de Alfred Hitchcock.”
Destaquei
as citações acima de Mayrink pela importância fundamental dos filmes e seu
texto irretocável!
Ainda
acrescento neste longo papo sobre Cinema, outras sequências cinematográficas
que me encantam e não poderia deixar de fora desta relação:
–
A dança dos pãezinhos de Charles Chaplin, esperando seu amor que não
virá ( EM BUSCA DO OURO – Chaplin, 1925)
–
O ataque dos helicópteros no Vietnã, ao som da “Cavalgada das
Valquírias” de Wagner (APOCALYPSE NOW – Coppola, 1979)
–
A cena final congelada na praia, após o adolescente rebelde fugir do
reformatório (OS INCOMPREENDIDOS – Truffaut, 1959)
–
O sadomasoquismo de uma bela mulher desagrada Vittorio Gassman (O
INCRÍVEL EXERCITO DE BRANCALEONE - Monicelli, 1974)
–
Com imagens inigualáveis do deserto, dois homens num poço d’agua
vislumbram uma silhueta ao longe (LAWRENCE DA ARÁBIA – Lean, 1962)
–
Numa das mais engraçadas cenas da história do cinema, um ator polonês se
disfarça de Hitler, num QG alemão na segunda guerra mundial (SER OU NÃO SER -
Lubitsch, 1942)
–
No aeroporto, uma aeromoça contrabandista chega ao trabalho, atrasada,
ao som de "Across 110th Street" (JACKIE BROWN – Tarantino, 1997)
–
Hitler tem um ataque de nervos numa tensa reunião com o alto comando
alemão, cena que inspiraria diversas e divertidas sátiras em mídias sociais
pelo mundo afora (A QUEDA – Hirschbiegel, 2005)
–
A batalha no gelo, ao som de Prokofiev (ALEXANDRE NEVSKI - Eisenstein,
1938);
–
O aterrorizante massacre psicológico final imposto a Vera Clouzot (AS
DIABÓLICAS – Clouzot, 1955);
–
A fuga alucinada de Buster Keaton de centenas de pretendentes, no
impagável SETE CHANCES (1925);
–
A deslealdade escancarada do traidor envergonhado e exposto, na cena
final de A UM PASSO DA LIBERDADE (Becker, 1960);
–
O iconoclasta Bunuel nos apresenta um jantar reunindo bandidos e
miseráveis, numa alegoria à Santa Ceia, em VIRIDIANA (1961);
–
Kubrick nos surpreende com o impactante desfecho da caçada ao
franco-atirador no final de NASCIDO PARA MATAR (1987);
–
O desespero de Rodrigo Santoro sendo asfixiado pela fumaça preta, na
cela fechada do sanatório ao som de BICHO DE SETE CABEÇAS, no filme de mesmo
nome (Bodanzky,2001);
–
Com a primeira guerra mundial chegando ao final, os jovens que
sobreviveram a esta carnificina estão felizes em seus últimos momentos nas
terríveis trincheiras. Um deles, num gesto lírico e inocente expõe-se além da
proteção para tocar numa borboleta, quando recebe um tiro fatal. Um final
pessimista e desolador em SEM NOVIDADES NO FRONT (Milestone, 1930);
–
Debaixo de chuva, raios e trovões, Clint Eastwood, devidamente
embriagado para que sua maldade possa aflorar, entra no saloon para vingar o
amigo, massacrando todos que estão pela frente e sai sozinho, gritando e ameaçando
queimar toda a cidade, que treme de medo, em OS IMPERDOÁVEIS ( 1992);
–
A expressão de horror do cego que consegue identificar pelo assobio da Ária
de Grieg, o monstruoso assassino de crianças, caçado pela cidade inteira,
inclusive pelos criminosos, em M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (Lang, 1931);
O
Cinema tem alma? pergunta Henri Agel em seu livro homônimo, lançado em 1963...
Estes recortes mágicos que pontuei, de forma extensa, compõem um tesouro de
imagens em minha mente e no meu coração, que vez por outra revejo, sempre com
prazer e entusiasmo. São preferências pessoais, mas ecléticas e atemporais como
a arte pressupõe...e que ajudam a responder esta pergunta!
PARA
MIM, AS MELHORES SEQUÊNCIAS DO CINEMA SÃO:
1) O condenado Chaplin encaminhando-se
à guilhotina, recusa as orações do padre, mas não um último copo de rum, ao
lembrar que nunca havia provado esta bebida, e a degusta como um último sopro
de vida (MONSIEUR VERDOUX - Chaplin, 1947) ;
2) Fred Mac'Murray morrendo ao chão e
abraçado ao investigador Edward G. Robinson, comenta que o suspeito que ele
buscava estava do outro lado de sua mesa na sala da empresa de seguros em que
trabalhavam. Ao que Robinson, acendendo-lhe o cigarro com o isqueiro que nunca
trazia consigo, responde com o coração: "Bem mais perto...bem mais
perto..." ( PACTO DE SANGUE - Wilder, 1944);
3) O velhinho aposentado na Itália
destroçada pela guerra, sofrendo com a miséria resolve pedir esmola, e estica a
mão como pedinte, mas no último momento num ato de dignidade e vergonha, a
inverte como quem está sentindo a chuva..." UMBERTO D – De Sica, 1952) ;
4) Em CINEMA PARADISO ( Tornatore,
1988), o agora famoso cineasta Salvatore, é avisado do falecimento do amigo
Alfredo, antigo projecionista do cinema de interior em que o menino Totó
apaixonou-se pela sétima arte em sua infância. O amigo, mentor e também censor
cortava trechos de cenas mais ousadas dos filmes e guardava numa caixa, que
após sua morte foi enviada ao pupilo, cuja edição dos pedaços censurados, ele
enfim assistiria numa exibição particular, solitária e absolutamente
emocionante;
5) A caminhada altiva e arrogante do
exuberante James Cagney rumo à cadeira elétrica. (ANJOS DE CARA SUJA - Curtiz,
1938);
6) A explosão de violência de Marlon
Brando quebrando pratos e móveis em casa, antes de pedir perdão à mulher, aos
gritos, sob a escada: "...Stellaaaa..." (UMA RUA CHAMADA PECADO –
Kazan, 1951);
7) A ressuscitação ao final de A
PALAVRA (1955), obra prima de Dreyer, que nos revela: " ...uma série de
pequenos milagres acontecem em segredo...";
8) Em VIVER ( 1952), de Kurosawa, o
idoso recebe no hospital, o exame atestando um câncer terminal... a partir daí
e por alguns minutos, não há som incidental nem diálogos no filme...arrasado,
ele sai do hospital, anda numa calçada e o silêncio de repente é quebrado pelo
som estridente e muito alto de uma buzina, quando ele, totalmente absorto e
chocado com sua infeliz sentença, é quase atropelado. É um despertar da realidade para o velho
doente e também para todos que veem o filme;
9) A assustadora chegada de um
traficante na favela, que com sua ascensão no mundo do crime exige que o chamem
de outra forma: “ Dadinho é o caralho! Meu nome agora é Zé Pequeno,
porra!! (CIDADE DE DEUS, Meirelles,
2002);
10) No final da Obra-Prima de Coppola,
O PODEROSO CHEFÃO (1972), após ser descoberta sua traição e ordenada sua
execução por Michael Corleone, Tessio, o antigo caporegime da familia mafiosa,
vivido por Abe Vigoda, ainda pergunta ao advogado Tom (Robert Duvall), se havia alguma chance pra
ele. Diante da negativa, ele se dirige ao carro cheio de capangas, já aceitando
sua morte, mas antes pede para que seja dado um recado ao novo chefão : "Diga ao Michael que eram só negócios.
Eu sempre gostei dele..." e ouve a grande
resposta: " ele compreende ".

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