UM TRIBUTO A ALAIN DELON

                                    UM TRIBUTO A ALAIN DELON

                                                                 Francisco Santamaria Mont'Alverne Parente


    O dia 18 de agosto do ano em curso marcou o encerramento da jornada de existência neste maravilhoso e insensato mundo de Alain Fabien Maurice Marcel Delon, ou simplesmente Alain Delon (1935-2024). Um monumento francês, como bem definiu o Presidente desse país, Emmanuel Macron (1977). Um portento da sétima arte, digo eu. Uma legenda da cinematografia mundial, repetem os cinéfilos de carteirinha do mundo inteiro. O homem mais bonito da face da terra, proclama o mulherio de todas as nações, em uníssona voz. 

Nascido em Sceaux, na região da Borgonha, filho de um pequeno empresário, dono de um modesto cinema, e de uma funcionária de uma farmácia, vivenciou uma infância muito problemática, inclusive com a separação de seus pais quando estava com quatro anos de idade, e uma adolescência igualmente complicada, sendo expulso de vários estabelecimentos escolares. Não obstante o contexto adverso em que estava inserido, no limiar de sua juventude, chegou a participar de um coral que, certa ocasião, apresentou-se em uma recepção oficial de homenagem ao então Bispo Apostólico Dom Angelo Giuseppe Roncalli, que viria a ser o Papa São João XXIII (1881-1963), ensejo em que ouviu do preclaro antístite estas palavras de bom augúrio: "Você é talentoso, menino. Já é bom; mas será grande!". Palpite certeiro. Vaticínio dos mais perfeitos, transmudado em sentença definitiva, com trânsito em julgado. 


    O futuro astro resolveu abandonar os estudos aos quinze anos de idade. No biênio seguinte, após um breve período na Aeronáutica como paraquedista, alistou-se na Marinha francesa, participando de combates na guerra da Indochina. Em 1956 passou a morar em Paris, vindo a exercer as atividades de porteiro, garçom e vendedor. O seu fulgurante destino no mundo do cinema começou a se descortinar em 1957, quando compareceu ao já afamado Festival de Cannes, atendendo a um convite que lhe fora feito pelo ator francês, nascido na Argélia e já seu amigo, Jean-Claude Brialy (1933-2007), cujo túmulo tive a oportunidade de ver no Cemitério de Montmartre, na Cidade Luz. Alea jacta est! A translúcida e olímpica beleza juvenil de Delon chamou a atenção dos olheiros de sempre, diligentes e muito hábeis na intuição à procura de talentos disseminados no anonimato das multidões. Um desses caçadores de eventuais celebridades vislumbrou a presença magnética do guapo rapaz em Cannes, contactando-o. O providencial encontro resultou na apresentação de Delon ao magnata e legendário produtor cinematográfico norte-americano David O. Selznick (1902-1965). A partir desse momento, o Livro de Ouro da Sétima Arte abriu suas douradas páginas para inscrever o mítico nome de Alain Delon, honra e glória da cinematografia mundial, nos anais dos grandes Ídolos da Tela de todos os tempos. 

Sua primeira película foi "Uma Tal Condessa" (Quand la Femme s'en Mêle, 1957), de Yves Allégret (1907-1987), cineasta parisiense da velha guarda, de reconhecida competência, e estrelada por Edwige Feuillère (1907-1998) e Jean Servais (1910-1976). Nascia o mito Alain Delon, cuja luminosidade no panorama cinematográfico jamais perdeu o brilho, graças ao talento de que era possuidor e à sua magnética personalidade, sempre nutrida pelo enorme carisma que tão bem soube cultivar com o inquestionável auxílio de sua beleza, compatível à do deus grego Apolo. Sua impecável e marcante trajetória artística brindou os amantes do cinema com oitenta e quatro filmes.


    A título de curiosidade, passo a enumerar aqueles que tive oportunidade de assistir em tela grande: "O Sol por Testemunha" (Plein Soleil, 1959), de René Clément (1913-1996); "Rocco e Seus Irmãos" (Rocco e i Suoi Fratelli, 1960), de Luchino Visconti (1906-1976); "O Leopardo" (Il Gattopardo, 1963), de Luchino Visconti; "Gangsters de Casaca" (Mélodie en Sous-Sol, 1963), de Henry Verneuil (1920-2002); "A Tulipa Negra" (La Tulipe Noire, de Christian-Jacque (1904-1994); "O Rolls-Royce Amarelo" (The Yellow Rolls-Royce, 1964), de Anthony Asquith (1902-1968); "Terei o Direito de Matar?" (L'Insoumis, 1964), de Alain Cavalier (1931); "A Marca de um Erro" (Once a Thief, 1965), de Ralph Nelson (1916-1987); "A Patrulha da Esperança" (Lost Command / Les Centurions, 1966), de Mark Robson (1913-1978); "Os Aventureiros" (Les Aventuriers, 1966), de Robert Enrico (1931-2001); "Dois Contra o Oeste" (Texas Across the River, 1966), de Michael Gordon (1909-1993); "Paris Está em Chamas?" (Paris Brûle-t-il?, 1967), de René Clément; "O Samurai" (Le Samuraï, 1967, de Jean-Pierre Melville (1917-1973); "Diabolicamente Tua" (Diaboliquement Vôtre, 1967), de Julien Duvivier (1896-1967); "Histórias Extraordinárias" (Histoires Extraordinaires, 1967 - episódio "William Wilson"), de Louis Malle (1932-1995); "Adeus Amigo" (Adieu l'Ami, 1967), de Jean Herman (1933-2015); "A Garota da Motocicleta" (The Girl on the Motocycle, 1968), de Jack Cardiff (1914-2009); "A Piscina" (La Piscine, 1968), de Jacques Deray (1929-2003); "Jeff, o Homem Marcado" (Jeff, 1968), de Jean Herman; "Os Sicilianos" (Le Clan des Siciliens, 1969), de Henri Verneuil; "O Círculo Vermelho" (Le Cercle Rouge, 1970), de Jean-Pierre Melville; "Um Homem e Duas Mulheres" (Madly, 1970), de Roger Kahane (1932-2013); "Borsalino" (Borsalino, 1970), de Jacques Deray; "Eu te Amo ... Nathalie" (Doucement les Basses, 1971), de Jacques Deray; "Sol Vermelho" (Soleil Rouge, 1971), de Terence Young (1915-1994); "A Viúva" ( La Veuve Courdec, 1971), de Pierre Granier-Deferre (1927-2007); "Scorpio" (Scorpio, 1972), de Michael Winner (1935-2013); "O Assassinato de Trotsky" (The Assassination of Trotsky, 1972), de Joseph Losey (1909-1984); "Expresso Para Bordeaux" (Un Flic, 1972), de Jean-Pierre Melville; "A Primeira Noite de Tranquilidade" (La Prima Notte di Quiete, 1972), de Valerio Zurlini (1926-1982); "O Crime das Granjas Queimadas" (Les Granges Brullées, 1973), de Jean Chapot (1930-1998); "Tratamento Diabólico" (Traitement de Choc, 1973), de Alain Jessua (1932-2017); "Big Guns" (Big Guns, 1973), de Duccio Tessari (1926-1994); "Dois Homens Contra Uma Cidade" (Deux Hommes dans Une Ville, 1973), de José Giovanni (1923-2004); "A Fibra dos Poderosos" (La Race des Seigneurs, 1973), de Pierre Granier-Deferre; "Borsalino & Cia." (Borsalino and Co., 1974), de Jacques Deray; "Encontros Cruzados" (Les Seins de Glace, 1974), de Georges Lautner (1926-2013); "Confissões de um Tira" (Flic Story, 1975), de Jacques Deray; "O Cigano Solitário" (Le Gitan, 1975), de José Giovanni; "Zorro" (Zorro, 1975), de Duccio Tessari; "Cidadão Klein" (Monsieur Klein, 1976), de Joseph Losey; "A Gang" (La Gang, 1977), de Jacques Deray; "A Morte de um Corrupto" (Mort d'Un Pourri, 1977), de Georges Lautner: "O Homem Insaciável" (L'Homme Pressé, 1977, de Édouard Molinaro (1928-2013); "Aeroporto 1980 - O Concorde" (Airport '80 - The Concorde, 1979), de David Lowell Rich (1920-2001); "Três Homens Para Matar" (Trois Hommes à Abattre, 1980), de Jacques Deray; "Teheran 43" (Téhéran 43, 1981), de Alexandre Alov (1923-1983) e Vladimir Naumov (1927-2021); "Na Pele de um Tira" (Pour la Peau d'Un Flic, 1981), de Alain Delon; "Um Amor de Swann" (Un Amour de Swann, 1983), de Volker Schlöndorff (1939); "Quartos Separados" (Notre Histoire, 1984), de Bertrand Blier (1939); "O Retorno de Casanova" (Le Retour de Casanova, 1992), de Édouard Niermans (1943); e "Astérix nos Jogos Olímpicos" (Astérix aux Jeux Olympiques, 2007), de Thomas Langmann (1971) e Frédéric Forestier (1969). 


    O renomado ator esteve por trás das câmeras em duas ocasiões, dirigindo as fitas "Na Pele de um Tira", citada há pouco, e "O Folheto" (Le Battant",1983), também figurando em ambas como personagem principal. Registre-se que Alain Delon experimentou a supina ventura de contracenar com a mulher mais bela de todos os tempos e de todas as épocas, desde a criação do mundo: A franco-tunisiano-italiana Claudia Cardinale (1938), com ela formando o casal mais bonito do cinema em três desses filmes, todos de excelente nível: "Rocco e Seus Irmãos", "O Leopardo" e "A Patrulha da Esperança". 

Alain Delon esteve casado com as atrizes Nathalie Barthélémy, que passou a adotar o nome Nathalie Delon (1941-2021), Mireille Darc (1938-2017) e com a jornalista Rosalie van Breemen (1966). No início de sua exitosa carreira cinematográfica, manteve um marcante, vulcânico e tempestuoso relacionamento amoroso com a atriz Romy Schneider (1938-1982). No ano de 1991 foi galardoado com a Ordem Nacional da Legião de Honra, a mais elevada condecoração honorífica do governo francês, em reconhecimento por seus méritos que, não há negar, enaltecem a sua pátria. Oito anos depois adquiriu a cidadania suíça. De natureza conservadora e admirador confesso do ex-Presidente francês e valoroso herói de guerra Charles de Gaulle (1890-1970), sempre manteve posição ao lado do espectro político agasalhado pelo ideário da direita em seu país, sem, no entanto, envolver-se diretamente em atividades político-partidárias. 


    Em junho de 2019 sofreu um sério acidente vascular cerebral que muito lhe quebrantou o ânimo, já comprometido com as agruras, vicissitudes e sequelas da velhice. Passou a desenvolver uma depressão que paulatinamente lhe fez perder a vontade de viver, chegando ao ponto de afirmar, no mês de março de 2022, sua disposição de se submeter a um procedimento de morte assistida na Suíça, país onde estava morando, cuja legislação permite a eutanásia. No entanto, os seus filhos conseguiram dissuadi-lo desse propósito. O venerável ator faleceu aos oitenta e oito anos em Douchy-Montcorbon, na região do Vale do Loire/França, entre os seus familiares, vindo a ser sepultado na capela particular que edificara em sua propriedade. Suas exéquias foram celebradas pelo eminente bispo católico francês Jean-Michel Di Falco Leandri, nascido em Marselha, no ano de 1941. A atriz Claudia Cardinale não compareceu à cerimônia reservada e íntima de despedida do insigne amigo, em última homenagem, sob a alegação de estar envolta em profunda tristeza. 


     A todos nós, inveterados amantes do bom cinema, só resta explicitar a piedosa e consagrada expressão do definitivo adeus, direcionada ao saudoso ator: Requiescat in Pace. O brinde musical eleito para emoldurar o presente texto incide sobre a maviosa canção "Laetitia", na voz do próprio Alain Delon. Trata-se de uma música muito bonita que integra a trilha sonora do excelente filme de Robert Enrico, cineasta francês de inegáveis méritos, "Os Aventureiros", já mencionado neste trabalho, de autoria do talentoso compositor autodidata e de idêntica nacionalidade, exímio pianista, mergulhador profissional e fascinado por jazz, François de Roubaix (1939-1975). Considerado um dos precursores da música eletrônica francesa, faleceu tragicamente em decorrência de um acidente de mergulho, afogando-se em Tenerife, a maior das ilhas Canárias espanholas.



Texto escrito em 28 de agosto de 2024.


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