Eu, Sélio – Um filme de Glauber Paiva
Eu, Sélio – Um filme de Glauber Paiva
Fabrício Alves
"Eu, Sélio" é, sem dúvida, mais do que um retrato de um personagem — é um testemunho de uma época, de uma postura diante da arte e da vida. Um curta que nos emociona, nos instiga e nos lembra da importância de resistir — com câmera na mão e ideias no coração. Cada cena parece cuidadosamente lapidada: a câmera capta detalhes com precisão, os silêncios falam tanto quanto os relatos.
Logo nos primeiros planos, somos apresentados às projeções de antigos filmes de cangaço — imagens que, mais do que ilustrativas, funcionam como prenúncio simbólico da inauguração da sala Benjamin Abraão, nos fundos da Casa Amarela. A escolha não é aleatória: é uma abertura que já sugere o entrelaçamento entre memória, resistência e cinema — temas que se desdobram ao longo do curta com sensibilidade e força.
É notável como o filme constrói, de forma sutil e poderosa, a simbiose entre Eusélio e a Casa Amarela. A relação entre o homem e o espaço transborda os limites do físico; há ali uma fusão entre vida pessoal e trajetória profissional, ambas costuradas pela mesma paixão visceral pelo cinema. A casa, nesse contexto, não é apenas cenário, mas personagem viva da narrativa.
O temperamento explosivo de Eusélio, admitido por ele próprio, ganha contornos ainda mais densos com a imagem do revólver calibre 38, que surge como uma metáfora potente ao se falar em “a bala” — seria um prenúncio do que viria a acontecer ou apenas uma constatação crua de uma postura diante do mundo?
Ao revisitar sua trajetória, o curta apresenta Eusélio como um sujeito que se destacou em múltiplas frentes — do concretismo ao cinema, da militância cultural à docência, sempre a seu modo, com intensidade e autenticidade. Suas obras, carregadas de um viés etnográfico, também não escondem o teor panfletário — um reflexo direto do seu engajamento político e social.
Entre as imagens marcantes, há uma em especial que faz lembrar diretamente à linguagem simbólica de “Bacurau”, de Kleber Mendonça: o plano em que um tocador de violão conduz um cortejo fúnebre evoca não só uma poética da resistência, mas também um certo encantamento trágico com a morte — herança de um Brasil profundo, tantas vezes negligenciado, mas que pulsa com força na tela
O "causo do caprino" é um momento à parte — delicioso e emblemático — que revela o bom humor e o sarcasmo, traços que Eusélio soube capturar como poucos.
A montagem do curta é um espetáculo à parte. Com cortes precisos e fluidez narrativa, o filme constrói um ritmo que respeita o tempo dos depoimentos e das imagens, criando um diálogo orgânico entre memória e presente, entre o gesto e a palavra.
Eusélio, ao discursar, remete inevitavelmente a Glauber Rocha — não apenas pela verve inflamada, mas também pela convicção estética e política que atravessa sua fala.
Nos instantes finais, enquanto ele cantarola Vivaldi e a música extradiegética se espalha pelo ambiente, somos tomados por um sentimento de encerramento digno e poético. O projetor para, e o filme encontra seu fim. Sensacional. Um detalhe que merece atenção: Regis Frota aparece nos agradecimentos
Senti falta de um "in memoriam", já que o filme foi editado em 1992, e sua ausência se faz notada.
O curta nos envolve desde o primeiro instante com sua atmosfera introspectiva e autêntica. Fica evidente o amor pelo ofício em cada escolha: enquadramentos, planos, trilha sonora… Tudo converge para nos mostrar que “menos” pode significar “muito”. Além disso, celebra a força dos sentimentos e dos pequenos gestos. Ele nos lembra que a vida — com seus pequenos silêncios, suas pausas e suas vozes internas — também é digna de ser contada no cinema. Um trabalho que merece ser visto, sentido e reverberado.
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