ACOSSADO, DE JEAN-LUC GODARD

                                                 ACOSSADO, DE JEAN-LUC GODARD

                            Regis Frota


1. INTRODUÇAO.

Em finais de 2019 e início de 2020 a imprensa ocidental comemorou em comentários cinéfilos e críticas especializadas, o pioneirismo de filme godardiano sexagenário, O acossado (A Bout de Souffle), o qual, apesar de ingressar na idade de realização de "idoso" continua, consoante tais veiculações, tão assustadoramente jovial e profético, porquanto o protagonista Poiccard (Jean-Paul Belmondo), após caçado durante toda a película, é deixado morto, no meio da rua, anonimamente, como qualquer transeunte ou cidadão atual, o qual, uma vez infectado pelo coronavírus, venha a óbito, anonimamente, vindo a ser jogado na vala comum da acumulação de cadáveres que o colapsado sistema de saúde, madrileno ou parisiense, chegou a conhecer.

Profecia e ineditismo.

Há mais de 60 anos, o cineasta Jean -Luc Godard abalava os alicerces da estética cinematográfica clássica, consagrada durante a primeira metade do século XX através do predomínio modelar hollywoodiano, ao revolucionar a cinematografia com seu filme "À bout de souffle" (Acossado, 1959).

Na verdade, nossa intenção, com este texto é tentar interpretar o impacto que o filme de estreia do cineasta suíço/francês Godard causou na estética cinematográfica do século XX. O anti ilusionismo e a desmistificação que sua obra apregoa (mui especialmente neste filme clássico que, ora, estudamos) atingiu um caráter filosófico, programático e, de alguma maneira, hostil aos padrões anteriores, fosse no ocidente europeu ou na América.

Acossado é um filme que inicia o modernismo no cinema enquanto paródia e sátira reflexiva (alguns historiadores pretendem, no entanto, atribuir esta autoria ou a paternidade desse movimento estético ao cineasta Ingmar Bergmann, com seu filme de 1954, Monika e o desejo), na medida em que o jovem Jean-Luc Godard (juntamente com os conhecidos "jovens turcos"- críticos cinematográficos do Cahiers du Cinema como François Truffaut e outros), partiu para a prática da elaboração filmica, com uma visão crítica cáustica de sucesso.

A referência que farei, a seguir, de algumas sequências ou alguns planos narrativos do filme Acossado tem sempre a intenção de recordar ao leitor/espectador a natureza lúdica e transgressora desse tipo "moderno" de cinema, cuja sutil didática mostra-se dialética como o teatro brechtiano. Após as recordações imagéticas e narrações dialogais, passaremos ao exame particular de algumas características godardianas da desmistificação e do seu anti ilusionismo artístico.


2. DESENVOLVIMENTO

Enquanto paródia dos filmes de gangster norte-americanos, Acossado já principia mostrando o protagonista Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) como o típico "malandro" - seja pela indumentária, a um tempo, desleixada e pretensiosa, seja pelos hábitos de insistir no consumo de tabaco e óculos escuros, passando, com insistência, o dedo polegar nos lábios, ao baforar os cigarros, qual herói de Casablanca, etc), que vive, descontraída e descompromissadamente, dando sempre "cabeçadas na humanidade", fazendo biscates, trocando de carros roubados, cobrando dívidas inexistentes.

A primeira sequência do filme- caracterizada pelo uso incomum, à época, da "câmara na mão" principia com um primeiro plano do ator Jean-Paul Belmondo fumando e lendo jornal, na rua, ao tempo em que confidencia ao espectador que se trata, então, de um FDP, "pois isso tem que ser feito"... A namorada engana ou entretém o guarda de trânsito, enquanto Poiccard liga direto a ignição de um carro, o qual rouba, antes de dirigir-se em disparada, por determinada rodovia, nas cercanias de Paris, dando tchau para a amante cúmplice.

Chama a atenção do espectador, no início do filme, quando, Poiccard (Belmondo), dirigindo carro roubado, em alta velocidade, e, após diversas ultrapassagens, mira para a câmara, ao indagar/afirmar: "se você não gosta do mar... se você não gosta da montanha... se você não gosta da cidade... então se dane!"

Os raios solares penetram nas copas das árvores, atingindo o painel dianteiro do carro; Poiccard (Belmondo) se irrita com a luz solar e, retirando pistola do painel do carro, atira no sol. Outra irreverência transgressora, anti-ilusionista e desmistificadora do Acossado, porquanto imediatamente, antes, constatara e dissera: "le soleil est beau"!

Logo é perseguido por guardas de trânsito, em motos, os quais são, gratuita e sumariamente, assassinados, executados pelo protagonista. Após a execução, Poiccard (Belmondo) foge, correndo a pé, pelos verdes campos dos vinhedos franceses, sob acordes musicais de filme de suspense americano, cujas imagens posteriores, obtidas em claro travelling paralelo à catedral de Notre Dame parisiense, percorre algumas ruas, até que o taxi, conduzindo o protagonista malandro, e vemos ele sair do carro e entrar em cabine telefônica, que não funciona, por sinal.

Se retira, compra jornal e dá rápido "vistazo" com o qual, após limpar os sapatos, joga fora, tendo, antes passado na portaria do prédio da amante, senhorita Francesquini, e furtado a chave do apartamento, procurando dinheiro dela sem encontrar em gavetas, sem deixar de afirmar que "mulheres nunca têm dinheiro"... Não é, contudo, a primeira oportunidade que o filme demonstra certa misoginia do personagem central, estilo gangsterista: ocasião da escapada pela rodovia campestre, ao ultrapassar vários veículos, Poiccard (Belmondo) afirmara que "mulher não deveria conduzir", quando tendo adiante de seu Cadillac roubado, carro dirigido por uma mulher, embora logo constatasse que sua lentidão era justificada por operários na pista lenta. Igualmente, ao observar duas moças pedindo carona na beira da rodovia, comenta consigo (e com o espectador, obviamente, num diálogo modernista e godardiano) que valeria a pena trocar um beijo por km rodado.

Observe-se, contudo, que o filme de Jean-Luc Godard, Acossado, é um filme intelectual de gangster, o qual prima pela paródia e a crítica reflexiva. As poucas moedas encontradas no bolso, verificadas em plano fechado da imagem, na palma aberta de Poiccard (Belmondo), autorizam-no a pedir ovos na cafeteria; anuncia que voltará, após comprar jornal - curioso por saber se já estaria noticiada sua presepada assassina - contudo, ingressa na casa da amante que acordara há pouco, ainda de pijama, a qual retorna preguiçosa aos lençóis, e o dublê de ator indaga-lhe sobre seus empregos na TV, ao tempo em que conta vantagem sobre sua temporada na Cinecittá; Francesquini atende ligação telefônica, enquanto ao ouvir, Poiccard, ante o espelho, arremeda, mais uma vez, o estilo durão, porém charmoso e sentimental, de Humphrey Bogart, esfregando seus lábios enrugados com ares de calejada indiferença, como se não estivesse a escutar o telefonema alheio. Estava, sim, e pede dinheiro à amante, alegando-se não cafajeste, porquanto a aluga apenas por meia diária; ante a oferta de quantidade menor disponível de dinheiro, Poiccard recusa receber, mas enquanto a namorada, de costas, se veste, ele se apropria de todo o dinheiro de sua bolsa, furtando-a e despedindo-se com mero "arrivedecci".

Pergunta a uma moça qualquer, em plena rua parisiense, por Patricia (Jean Seberg), a jornalista e vendedora do New York Herald Tribune, onde trabalha e a qual, a partir dessa sequência cinematográfica contracenará com Poiccard (Belmondo), em momentos e circunstâncias variadas e acronológicas, dando ao filme Acossado sua temperatura e volatilidade, valendo observar que, além de se constituir em uma autogozação, no afirmar de Stam* , constrói uma "orgia de citações, torna a narrativa literária, a subtrai de sua substância diegética e força-nos a contemplar o filme como uma colcha de retalhos de pastichos literários e cinematográficos."

Ora, Godard é mestre da auto-reflexividade cinética e literária. Em Acossado, a dupla Patrícia e Poiccard (Seberg e Belmondo) almejam ser heróis de filmes, adotam o linguajar e o comportamento dos gangsters dos film noir.

Portanto, não surpreende o diálogo inicial da dupla, travado em meio da calçada, enquanto vão e voltam da rua, quando ela quer saber quando ele voltou de Monte Carlo e, porquê, posto que sempre afirmou odiar Paris... ele responde que o fato de ter inimigos em Paris não significa que odeie a capital francesa e, que retornou só para vê-la e para saber se ela, ainda, o ama. Ela anuncia e oferta, em voz alta, o NY Herald Tribune. Ele pede um exemplar, o qual logo devolverá sob a alegação de não possuir horóscopo. Indaga se ela não quer saber o futuro... Caminham lado a lado, ele de chapéu da mesma cor marrom do blaizer, mãos nos bolsos da calça preta, gravata xadrez curta e desleixada; ela, cabelos curtos a lá garçom, blusa branca com inscrição do jornal, porta num braço um maço das edições do jornal NY Herald Tribune, na mesma mão uma bolsa "pochete" branca, todavia mais alva que a cor da blusa. Parecem se entender...

Ante a indagação feita por Patricia do motivo da permanência de Poiccard, em Paris, ele afirma que carece encontrar-se com um cara que lhe deve um dinheiro, que precisa vê-la (quer dormir com ela, segundo ele, porque as duas garotas com quem dormiu após "coucher" com Patricia, pela última vez, foram um "saco"). "As duas vezes foram um saco", afirma Poiccard (Belmondo), ao que aquela quer saber que significa "um saco" , não foi bom, esclarece ao corrigi-la ter dormido cinco vezes com Patrícia e não, apenas, três vezes. Pergunta-lhe as horas, ao convidá-la para viver com ele em Roma, ela esclarece que se não frequentar a Sorbonne, seu pai não lhe fornecerá a mesada.

Pura paródia. Cabe, aqui, aclarar a posição godardiana do fazer artístico cinemático, a exemplo modernista, de Acossado. O teórico Robert Stam 50 lembra que "para compreendermos o modernismo de Godard, devemos vê-lo dentro do contexto da vanguarda artística em geral." Segundo ele, Godard deve ao Dada e ao surrealismo a incorporação do acaso à Arte, uma característica típica da fase intermediária de seu trabalho. Em Godard, o sexo não é lascivo, oferecendo-nos um contra exemplo à prática dominante hollywoodiana. "Toda a manipulação erótica do espectador não passa de mais uma expectativa convencional que Godard se recusa a satisfazer."

Continuemos a rever o filme de Godard, Acossado. Combinados Patrícia e Poiccard de se encontraram naquela altura, daquela rua, pela noite, se afastam, ele a uma banca de jornal, ela para o trabalho, sem antes voltar a ele, beijando-o, como a demonstrar o interesse pelo reencontro noturno, antes combinado. Poicard presencia um abalroamento na rua, um homem atingido, desfalece na calçada; se persigna, exemplar do jornal aberto sob os olhos, apressados, nas mãos, indiferente e segue, em busca do senhor Tolmatchoff, no balcão de uma companhia aérea.

Sempre de frente à câmara, em direção ao espectador, Poicard caminha rumo aos balcões da Cia. Aérea onde trabalha esse funcionário que lhe entrega um envelope com um cheque "cruzado" enquanto caminham lado a lado, e dialogam sobre mulheres e dinheiro. Carente de dinheiro "cash", Poicard lamenta o cheque"cruzado"; Pergunta por Berruti, outro devedor seu, parece que do mesmo naipe em matéria de matreirice e malandragem. "Sim, chegou ontem de Tunísia", informa o funcionário a Poicard, o qual informado do número do telefone de Antonio Berruti, o liga, sem encontrá-lo. Se despede e sai, jornal no bolso do blaiser, onde já vira "estampada" sua foto, identificadas as impressões digitais do matador dos guardas de trânsito. O cerco a Poiccard começa a estreitar, agora cujas imagens seguintes mostram uma dupla de investigadores policiais indagando se os funcionários recebem a correspondência a eles dirigida, ali mesmo, donde Tolmatchoff deveria denunciar o paradeiro de Poiccard, a quem encontrara cinco minutos antes, segundo denúncia de invejosa colega de trabalho.

De um lado, o protagonista entra e sai de metrô, diante do Arco do Triunfo, enquanto os investigadores policiais correm, pelas ruas centrais, para tentar encontrá-lo, debalde. Poicard, anônimo, pára ante os cartazes de filme americano, Plus dure será la chute, estrelado por Humprey Bogart, cuja imagem dura é mostrada em plano "close" , ao tempo que o protagonista lança olhar de admiração, sonhando em imitar o ídolo de carne, não perdendo a chance de arremedar, mais uma vez, o estilo gangsterista durão, porém charmoso e sentimental, másculo de Bogart, esfregando seus lábios enrugados com ares de calejada indiferença, cheios de fumaça advinda das baforadas expelidas dos seus pulmões. Poiccard se mostra um espectador de filme americano, embora diferenciado dos espectadores "voyeuristas" comuns, em função da parodização godardiana.

O longo plano de admiração (em PPP frontal de Belmondo, sem óculos) que o protagonista do Acossado lança sobre os cartazes do cinema daquela semana, não deixam dúvida da "expertise" do diretor cinematográfico Jean-Luc Godard; Ele conhece o cinema americano clássico e se volta a parodiá-lo como forma de superação, como maneira de revolução estética, de introdução de uma versão modernista na produção audiovisual.

Eis a importância do Acossado: desde a primeira cena ou sequência do filme já vemos o protagonista se voltando, diretamente, para a platéia, em contraposição a uma certa convenção do teatro e do cinema naturalista até então dominante, a qual ditava que os atores e atrizes nunca deveriam se dirigir à plateia, e isto porquanto os espectadores sentir-se-iam desconfortáveis e ameaçados, caso fossem percebidos como "vouyeristas".

Voltando ao filme. Acossado é moderno porque rompe com o padrão antes consagrado. Um flou se fecha sobre os investigadores, desbaratados, na esquina sem rumo do perseguido assassino. A próxima cena se dá na escuridão do celuloide, sonorizada pelo diálogo da dupla heroína, a nova-iorquina Patrícia (Seberg) e o malandro Poiccard (Belmondo), se combinando um jantar, encostada em carro estacionado na rua parisiense. Poiccard coloca seu chapéu na cabeça de Patrícia e avisa que precisa passar um telefonema, que ela aguarde 30 segundos, que a desaponta, ao afirmar: "Quando um francês diz 30 segundos, representa cinco minutos." Permanece fumando, entre dois carros estacionados, enchapelada. Enquanto espera, vê-se Poiccard entrando no WC, lava as mãos, antes de nocautear um colega de banheiro e roubar-lhe o dinheiro da carteira.

Alcançando Patrícia na rua, Poiccard continua seu diálogo inverossímil, porém cativante; Pergunta-lhe onde irão e se dormirão juntos aquela noite; - "Não sei", contesta a garota, sorrindo. Porque não? Não foi bom, da outra vez? Poiccard comenta noticia que diz ter lido no France Soir (tem jornal numa das mãos, enquanto caminha ao lado de Patrícia): "Um motorista de ônibus roubou cinco milhões para parecer rico e impressionar uma garota, gastaram o dinheiro em três dias na Riviera"; E conclui: "Nem um pouco envergonhado, ele confessou ter roubado o dinheiro; eu não presto, mas eu te amo."

Poiccard insiste no interessante da narração de sua historieta porquanto a garota não se teria importado com a confissão de roubo do motorista, voltaram a Paris para assaltar em Passy, ficando ela de guarda. Boa garota! Conclui Poiccard, antes de ser interrompido por transeunte, que lhe pede um isqueiro, recebendo de Poiccard pequena quantia, recomendada para compra de fósforos. Patrícia, de sopetão, se desculpa alegando que quase esquecera um compromisso para aquele horário: uma entrevista cujo companheiro de cobertura jornalística passaria a recorrê-la, de imediato. Poiccard sente-se frustrado e oferece carona a Patricia, que aceita pois já buscava um taxi. No trajeto, imagem lateral da moça com penteado a la garçon, Patrícia pergunta pelo carro anterior de Poiccard que alega encontrar-se no conserto. Ante a imagem fixa do pescoço e cabeça da garota, Poiccard afirma não poder viver sem Patricia, ao tempo que descreve ter uma "garota de belos braços, belo pescoço, belos cabelos, belo rosto..." mas, quando, repentinamente, Patrícia pede para descer do carro, pois chegara na altura do compromisso, provocando Poiccard a desferir comentários desairosos: "Você não presta, não te quero mais, não te verei outra vez, etc."

Patrícia sobe a escada rolante e, senta em mesa, com amigo americano. Ele a presenteia com livro e, espera não ocorrer com ela, o que terá ocorrido com a heroína, posto que morrera na cirurgia de retirada do bêbê, abortado. Patricia comenta não saber -se infeliz porque não livre, ou não livre por infeliz. - Desapareça, como fazem os elefantes, recomenda o editor chefe do jornal NY Herald Tribune. E tenta animá-la contando um encontro que teria tido, há dois anos, com uma garota com quem pretendera dormir: no almoço esqueceu de dizê-lo e então, mandou-lha um telegrama informando sua intenção. A garota teria respondido, registrando a coincidência de ter pensado exatamente a mesma coisa com ela em relação a ele. Patrícia, então, pergunta quando receberá novas tarefas jornalísticas do Editor, o qual informa-lhe que ela irá, amanhã, ao aeroporto de Orly, entrevistar ao romancista Parvulesco. Que ela passasse no Bureau para saber a hora exata. E saíram abraçados, escada a baixo, com o consentimento de Patrícia, e simultâneo desapontamento de Poiccard que a aguardava, fumando sempre, cigarro após cigarro, e somente poderá acompanhar, com o olhar andarilho, o casal americano entrando, em carro esporte.

Vai a uma banca de jornal, mais uma vez. Com pretexto de observar melhor o casal norte-americano (Patrícia e Editor Chefe) e os vê, desapontado, a se beijar, carinhosa e ardentemente. Faz beicinho. O carro esporte do americano percorre ruas parisienses, até cruzar o Arco do Triunfo; A próxima imagem é da Torre Eiffel, captada desde o ônibus elétrico que leva Patricia, até baixar e caminhar cruzando os passos, com aparecia felizarda, e então, antes de ingressar em seu edifício residencial, se observa, sorridente, em espelho de vitrine de loja próxima. Ao chegar no seu prédio, não encontra a chave do seu apartamento, estando vazio o box de madeira. Sobe, afinal talvez tenha esquecido a chave na porta. Ao entrar, se surpreende com Poiccard deitado em sua cama, sob a alegação de que o Hotel Claridge não dispunha de quarto.

- Não faça careta, lhe diz Poiccard, descontraído. Como é fazer caretas? Ao indagar Patrícia, Poiccard faz toda uma série de "mogangos" na expressão do rosto, ora de riso, ora de raiva, ora contraindo os lábios, ora abrindo a boca, franzindo a testa, em expressivo gesto que o caracterizará, na medida da paródia godardiana.

Travam longo diálogo, sobre banalidades e tipicidades de gênero. Deitados na cama, embora vestida Patricia e Poiccard de cuecas, abaixo dos lençóis, ele tenta convencê-la de que deve dormir com ele, e que será considerada covarde, se não tiver ousadia de trasladar-se a Roma consigo; Já Patricia está indecisa, não tem certeza de coisa alguma, gosta dele, mas o acha "maluquete", optando pela segurança do emprego e amizades parisienses. Aqui vai uma observação fundamental na interpretação da estética godardiana, na contramão do modelo hollywoodiano, o qual, no dizer de Robert Stam, "sob a forma do pornográfico explícito ou do espetacular pervertido, o cinema comercial continua fabricando novos objetos de consumo que satisfaçam à cobiça de um dos órgãos eróticos mais primários do corpo humano: o olho." Tanto que Godard apresenta a relação sexual de Poiccard e Patrícia debaixo dos lençóis, encobertos, de modo não lascivo, portanto. O sexo, em Godard, não é lascivo, porquanto a manipulação erótica do espectador não passa de mais uma expectativa convencional que o diretor francês se recusa a satisfazer. A imagem sexy não lhe interessa, portanto.

Após demorada sequencia cinematográfica (certamente, a mais longa e demorada do filme) dos dois heróis do filme Acossado, ela tentando conhecê-lo melhor, ele tentando transar com ela, em que pese tenha-o feito durante a noite, se vestem ao meio dia, após vários telefonemas dele, cobrando dinheiro e o paradeiro de Antonio Derruti, e, partem em novo Cadillac, roubado por Poiccard que conduz a jornalista ao emprego, sem antes de passar pelo NY Herald Tribune, ser reconhecido por um leitor do jornal (o próprio diretor do filme) que estampa a foto de Poiccard (o assassino dos dois guardas de trânsito), o qual o denunciará a policiais fardados, sobre os quais se fecha a imagem. Atente-se para o fato burlesco e identitário de que o ator que denuncia Poiccard seja o próprio Jean-Luc Godard, parece até como se víssemos pessoas reais como personagens de um filme de ficção; Aliás, Godard empregou dessa forma diretores outros - noutros filmes e oportunidades distintas-, como Fritz Lang (em O Desprezo) e Samuel Fuller (em O Demônio Das 11 Horas).

A entrevista com o famoso escritor Parvulesco, romancista intelectual - espécie de duplo de Godard-, inserida nos desempenhos da personagem feminina Patricia (Jean Seberg), que ajuda Poiccard a escapar da polícia, em Acossado deixa entrever reflexões críticas ao pensamento dominante nos finais da década de cinquenta do séculopassado. Com roteiro de François Truffaut e Godard, o filme exubera na intertextualidade, pelo teor crítico intelectualista das perguntas e respostas, integrando-se na narrativa fragmentada da película. No saguão do aeroporto, vários repórteres indagam ao famoso escritor "qual a diferença entre a vida das mulheres americanas e francesas"?

Resposta: "as mulheres americanas dominam os homens... as francesas ainda não." Quando indagado sobre "qual sua grande ambição na vida", o romancista Parvulesco responde: "Tornar-me imortal e depois ... morrer." E, por fim, perguntado sobre o que seria mais ético: "a mulher que trai o homem, ou o homem que a abandona? ou, ainda, "quantas mulheres um homem pode ter na vida"? O romancista responde fazendo os mesmos gestos, (anteriormente feito por Poiccard, ante indagação de Patricia de com quantas garotas já tinha estado) de cinco dedos de mão aberta, várias vezes, e afinal, um dedo indicador a mais. Mais que dezenas, portanto. Quase encerrando a entrevista, Patrícia indaga ao romancista se ele crê que uma mulher desempenha um grande papel na sociedade moderna, ao que o romancista particulariza, galanteadoramente, a resposta: " Sim, se ela usa óculos "gatinho" e porta um vestido "listrado", em alusão direta à indumentária da jornalista, que sorri com o elogio indireto...

Entrevista encerrada, vemos Poiccard tentando fazer dinheiro, através da venda de seu carro roubado, do qual retira o cabo de ignição, agride o pretenso comprador que regateara o preço oferecido, roubando-lhe os trocados da carteira para pagar um taxi que toma para conduzir Patrícia ao centro da cidade, passando por vários bairros onde, não encontrando com Antoine que saíra há cinco minutos, faz "gracinhas" estúpidas ao levantar o vestido de uma transeunte do parque que atravessa, e engana o taxista sem pagar-lhe a corrida, na medida que atravessa uma galeria, a pé com Patrícia, saindo do outro lado obscuro da antiga Paris ocupada pelos alemães, da II Grande Guerra, numa demonstração de esperteza matreira e gangsterista.

Enquanto Patricia ingressa no NY Herald Tribune, Poiccard segue noutra direção da rua; sorte dele, pois, imediatamente os investigadores mostram foto do protagonista à jornalista Patrícia e ela nega que o reconheça, contudo, insegura, sai da sede do jornal para avisar a Poiccard sobre a iminente perseguição policial, ao tempo que aquele malandro apaixonado a acompanha, escondendo-se o rosto sob um jornal aberto, até que ela se esquive pela janela de um banheiro público, fugindo do investigador policial que a persegue. Poiccard e Patricia vão, então, a uma sala de cinema de rua assistir "Westbound" até o escurecer do dia, escapando do cerco policial, no momento, em que ela supõe compreender o que pretendia dizer Poiccard com a frase: "seria o dobro ou nada". Diegéticamente, estamos ante "um filme dentro do filme". Ao sair do cinema, a pé, e empós, a dupla de carro, pode ler - juntamente com o espectador do Acossado o letreiro luminoso da rua com os dizeres: "o cerco a Michel Poiccard aperta"...

Próxima sequência do filme: No carro estão Poiccard e Patricia, cruzando ruas de Paris; ela lê o jornal com foto do namorado e confere-lhe se ele já foi casado: sim, há tempos, reponde o gangster francês, com uma maluquinha, identificada pela polícia através de uma denúncia, por ele considerada normal, pois, "é normal que denunciadores, denunciem, assassinos matem e amantes amem e se apaixonem..." termina seu comentário realista em frente às luzes da praça da concórdia, afirmando: "C'est belle la place de la Concorde"!

Ingressam num parking subterrâneo para trocar de carro roubado, em disfarce, diz Poiccard que ali sempre deixam as chaves na ignição, pedindo que Patricia conduza o novo carro "roubado,"porquanto ele se esconderá no banco traseiro; Ao sair na rua noturna, letreiro luminoso informa: "Michel Poiccard na iminência de ser preso". 

Em busca de receber dinheiro devido por Antoine, percorrem o bairro de Montmartre, e um transeunte indagado, informa o paradeiro do devedor em troca de um beijo na mão de Patrícia; quando a dupla de amantes encontram, por fim, ao procurado devedor de Poiccard, vê-se extorsão via foto de beijo "falso" da acompanhante de Antoine, o qual, saldada a dívida com Poiccard, chocam-se os punhos à moda de décadas posteriores.

Poiccard e Patricia seguem de carro, embalados por trilha sonora "de jazz", parodiado. O casal ingressa em "studio fotográfico", por indicação de Antoine, esconderijo ignorado pela polícia. Dialogam, enquanto "modelo" em roupas sumárias, fotografa. Patricia diz a Poiccard que não aceitaria ser "modelo" para não dar para todo mundo. Está indecisa. Põe LP na radiola, Concerto de Mozart e pergunta se não incomoda. - "Não, meu pai era clarinetista".

Às 5hrs da tarde, quando Patricia desce do balcão do segundo andar para a sala, Poiccard lhe solicita ir comprar um litro de leite e o jornal France Soir. Ela vai e aproveita para telefonar à Polícia, denunciando o paradeiro do amante. Informa a Poiccard que o denunciou para não mais se apaixonar por ele, para se livrar dele.

Diálogo: Patrícia: Se te amasse, seria complicado. Poiccard:"Agiste exatamente como todas aquelas mulheres que não dormem com quem as ama, por isso não fugirei".

Última sequência do filme, aliás, belíssima pela leveza da filmagem: Poiccard (Belmondo), ao escutar a buzina de Antoine Derruti, sai à rua dizendo-lhe que não reagirá, recusando revólver oferecido por ele, e abandonando mala de dinheiro, corre (travelling demorado com câmara na mão, acompanha o ator/personagem captado pelas costas, em disparada corrida, até ser baleado e tombar em calçamento, onde agonizará sendo observado por curiosos e por Patricia, a qual parece não acreditar na opção pela morte de Poiccard o qual, nos estertores da vida, deitado no chão, agonizando baleado, faz. histriônicas "caretas" para a amante (franzindo testa e passando dedos nos lábios, em imitação humorística e parodiadora de Bogart), segundos antes de morrer, se dirige à Patricia (Jean Seberg) dizendo-lhe: " você é a escória - "completement déguelasse", explodindo na tela a legenda "fim".

Filme B de intelectuais

Concordo com o cinéfilo amigo, Bráulio Tavares, quando afirma em relação ao trabalho de Godard como o melhor tipo de filme que existe é filme-B feito por intelectual. Seria, segundo ele, com o qual de acordo estou, "muito melhor do que filme A feito por analfabetos. Sim, por que um filme-B é por definição um filme que não tem muitas ambições de bilheteria ou de crítica, um filme feito apenas para se pagar, sumir e dar lugar ao próximo. Não quer invadir mercados, não quer disputar espaço de centenas de salas, não feito sob uma enorme expectativa de desempenho nas bilheterias, não teve ações negociadas numa bolsa de mercados futuros. Só tem obrigações para consigo mesmo. O filme B é feito por uma turma, não por uma equipe de grandes estrelas, diz Bráulio com total acerto. Por isto é que escolhi para comentar sobre o filme de estreia de Godard, sobre o Acossado, tanto porque o reconheça as qualidades estéticas, meus sessenta anos de ligação com a cinefilia francesa, como igualmente, por causa dos elementos jurídicos encontráveis na película, a ponto de ser possível de ser o filme abordado, unicamente, sob essa ótica estreita da juridicidade atravessada pela arte, coisa que não fizemos aqui, deixando para outra oportunidade. O Direito e o Cinema Francês estão estreitamente ligados, reconheço, porquanto desde os primórdios da sétima arte, ainda em 1895, final do século XIX, os irmãos Lumière constatavam que "le cinema est une invention sans avenir" , mas mesmo assim a França tanto contribuiu, nestes dois últimos séculos, para um Direito de cunho universalista, quanto fez um cinema incontornável.

Mas, aí já deixamos para outra oportunidade.

Consoante afirmado por Mário Alves Coutinho,  "ao decidir escrever este livro, eu não ignorava a publicação de uma quantidade enorme de livros por Jean-Luc Godard: roteiros (inumeráveis), produção crítica (dois volumes), frases (dos filmes dos últimos dez anos) e os quatro volumes de Histoire(s) du Cinema. Para afirmar que ele fizera literatura nesses livros, o que não era meu objetivo primário, eu primeiro teria que responder a algumas perguntas: a crítica de cinema pode ser literatura? E quanto aos roteiros cinematográficos? Diálogos de filmes, ou narrações em off, podem ser considerados literatura?"

Eu digo e considero que sim, minha atitude ensaística se volta para uma compreensão de que é literária a grande matéria filmográfica, especialmente, de certos cineastas, os quais, como Godard fez, faz e fazia literatura enquanto realizador de películas, enquanto cineasta. Escrevem com a câmara. É um predileto.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. COUTINHO, Mario Alves: "Escrita com a câmara - a literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard", editora Crisálida, Belo Horizonte

2. FELLINI, Federico: "A Arte da visão - conversa com Goffredo Fofi e

Gianni Volpi, Martins Fontes Edit., Rio de Janeiro/São Paulo, 2012

3. FELLINI, Federico: "Fellini conta Fellini, Livraria Bertrand, Lisboa, 1982.

4. PEDRAZA, Pilar e LÓPEZ GANDIA, Juan : "Federico Fellini", Cátedra, Madrid, 1993

5. MARTINS, Luiz Renato: "Conflito e interpretação em Fellini", EDUSP/

Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, São Paulo, 1993.

6. SILVEIRA, Walter da: Fronteiras do cinema, Edit. Tempo

Brasileiro, RJ, 1966.

7. STAM, Robert: "O espetáculo interrompido - literatura e cinema de desmistificação", Edit. Paz e Terra, 1981.

8. STAM, Robert: A literatura através do Cinema - Realismo, magia e a arte da adaptação, UFMG/Humanitas, Belo Horizonte, 2008

9. XAVIER, Ismail: "O discurso cinematográfico", Edit. Paz e Terra,

S. Paulo, 1977.


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