TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO
TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO
Marcelo Alves Dias de Souza
É na “Old Bailey” onde Agatha Christie (1890-1976) faz passar boa parte da sua peça “Testemunha de Acusação” (“Witness for the Prosecution”, 1953). “Old Bailey”, para quem não sabe, é o apelido dado à sede das cortes criminais (centrais) de Londres, em virtude de ela estar situada em rua com esse nome. A estreita via fica bem pertinho da confluência da famosa Fleet Street (que, por outrora sediar quase todos os jornais londrinos, é hoje como um sinônimo, em forma de metonímia, de “imprensa” na Inglaterra) e a Ludgate Hill, que vai dar no frontão da ainda mais famosa St. Paul’s Cathedral, obra-prima de Sir Christopher Wren (1632-1723).
Reformulação de um conto publicado Christie em 1933, a peça “Testemunha de Acusação” foi pela primeira vez encenada sob a batuta do produtor Peter Saunders (1911-2003), na Londres pós-guerra de 1953. Composta de três atos, ela é, juntamente com “A Ratoeira” (“The Mousetrap”, 1952), uma das duas mais afamadas peças teatrais da “dama do crime”. Produzida no EUA já no ano seguinte (1954), “Testemunha de Acusação” tem, desde então, ganhado os palcos do mundo. Isso sem falar nas versões em livro publicadas em dezenas de línguas. Eu mesmo, para escrever esta crônica, tenho em mãos uma edição brasileira já bem velhinha (cuja data não consegui identificar), em papel de jornal, da Editora Record.
Embora ela seja uma das mais lidas e encenadas peças de Agatha Christie, a estória de “Testemunha de Acusação” alcança de fato o grande público com a sua adaptação para o cinema. Sob a direção de Billy Wilder (1906-2002), em 1957 é lançada a película de mesmo nome (“Witness for the Prosecution”), a meu ver um dos melhores filmes de tribunal ou “courtroom dramas” até hoje produzidos (vide a crônica “Filmes de tribunal”, publicada aqui semana passada). Em 1958, foi indicada ao Oscar em seis categorias, entre elas as de melhor filme, melhor diretor e melhor ator. Não deu sorte, pois, naquele ano, concorria com outras obras-primas, como “Doze Homens e uma Sentença” (“12 Angry Men”, direção de Sidney Lumet) e o grande vencedor, a “Ponte do Rio Kwai” (“The Bridge on the River Kwai”, direção de David Lean).
No filme de Billy Wilder, Tyrone Power (1914-1958) faz o papel do acusado Leonard Stephen Vole. Marlene Dietrich (1901-1992) é Christine Helm Vole, a esposa de Leonard e “testemunha de acusação”. Elsa Lanchester (1902-1986) faz o papel da Srta. Plimsoll, a severa enfermeira do velho e irascível advogado Sir Wilfrid Robarts, QC (sigla para Queen Counselor, distinção de mais alto grau para um advogado), personagem de Charles Laughton (1899-1962). Laughton e Lanchester, curiosamente, foram, na vida real, marido e mulher. A meu ver, sem desmerecer a interpretação dos demais atores (sobretudo de Elsa Lanchester, indicada ao Oscar como melhor atriz coadjuvante), é Charles Laughton, no papel de Sir Wilfrid Robarts, quem domina o filme. Indicado ao Oscar de melhor ator (vencido por Alec Guinness pelo papel de Coronel Nicholson em “Ponte do Rio Kwai”), ele é o advogado carismático, tão comum nesse tipo de filme, que, enfrentando a estranha “testemunha de acusação” e a própria enfermeira, cômica e brilhantemente salva o inocente acusado (no caso, apenas aparentemente inocente) de uma injusta condenação.
Apesar dos traços cômicos, que dão um tom único ao filme, “Testemunha de Acusação” é, antes de tudo, uma reverência ao que o Direito – no caso, o Direito inglês – tem de melhor. Na adaptação de Billy Wilder, a sala de audiência na “Old Bailey” é um lugar majestoso, que transpira tradição e é frequentado por grandes homens. Charles Laughton/Sir Wilfrid Robarts, a “velha raposa”, consegue absolver Leonard Vole apenas para descobrir, imediatamente após o veredicto, que o acusado era realmente culpado. A reação do velho advogado é: “Vole, você brincou com a lei inglesa”, um pecado mais “grave” que o próprio homicídio. Leonard Vole, que revela estar de caso com uma mulher mais nova, é, em seguida, fatalmente esfaqueado por sua esposa, a “testemunha de acusação”. E o filme termina com Charles Laughton/Sir Wilfrid Robarts prometendo defender a esposa/testemunha traída, mostrando sua crença na Justiça e no sistema legal inglês.
Para além do roteiro engenhoso (do qual Billy Wilder é também um dos autores), “Testemunha de Acusação” é cheio de cenas inesquecíveis. É antológica a cena em que, a partir de uma troca proposital de garrafas de chocolate e conhaque, se vê Sir Wilfrid Robarts (que ainda convalesce após muitos dias de hospital e está proibido de fumar e beber), em plena audiência, bebendo o destilado francês, enquanto sonsamente cumprimenta sua satisfeita e enganada enfermeira. O diálogo entre o juiz e a testemunha surda, que afirma não estar escutando bem o que se está falando, é também sensacional. O juiz apenas afirma algo como: “tendo em vista o que se diz por estes dias, é muita sorte sua”. Pensem numa afirmação perfeitamente aplicável aos nossos dias.
TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO
Marcelo Alves Dias de Souza
É na “Old Bailey” onde Agatha Christie (1890-1976) faz passar boa parte da sua peça “Testemunha de Acusação” (“Witness for the Prosecution”, 1953). “Old Bailey”, para quem não sabe, é o apelido dado à sede das cortes criminais (centrais) de Londres, em virtude de ela estar situada em rua com esse nome. A estreita via fica bem pertinho da confluência da famosa Fleet Street (que, por outrora sediar quase todos os jornais londrinos, é hoje como um sinônimo, em forma de metonímia, de “imprensa” na Inglaterra) e a Ludgate Hill, que vai dar no frontão da ainda mais famosa St. Paul’s Cathedral, obra-prima de Sir Christopher Wren (1632-1723).
Reformulação de um conto publicado Christie em 1933, a peça “Testemunha de Acusação” foi pela primeira vez encenada sob a batuta do produtor Peter Saunders (1911-2003), na Londres pós-guerra de 1953. Composta de três atos, ela é, juntamente com “A Ratoeira” (“The Mousetrap”, 1952), uma das duas mais afamadas peças teatrais da “dama do crime”. Produzida no EUA já no ano seguinte (1954), “Testemunha de Acusação” tem, desde então, ganhado os palcos do mundo. Isso sem falar nas versões em livro publicadas em dezenas de línguas. Eu mesmo, para escrever esta crônica, tenho em mãos uma edição brasileira já bem velhinha (cuja data não consegui identificar), em papel de jornal, da Editora Record.
Embora ela seja uma das mais lidas e encenadas peças de Agatha Christie, a estória de “Testemunha de Acusação” alcança de fato o grande público com a sua adaptação para o cinema. Sob a direção de Billy Wilder (1906-2002), em 1957 é lançada a película de mesmo nome (“Witness for the Prosecution”), a meu ver um dos melhores filmes de tribunal ou “courtroom dramas” até hoje produzidos (vide a crônica “Filmes de tribunal”, publicada aqui semana passada). Em 1958, foi indicada ao Oscar em seis categorias, entre elas as de melhor filme, melhor diretor e melhor ator. Não deu sorte, pois, naquele ano, concorria com outras obras-primas, como “Doze Homens e uma Sentença” (“12 Angry Men”, direção de Sidney Lumet) e o grande vencedor, a “Ponte do Rio Kwai” (“The Bridge on the River Kwai”, direção de David Lean).
No filme de Billy Wilder, Tyrone Power (1914-1958) faz o papel do acusado Leonard Stephen Vole. Marlene Dietrich (1901-1992) é Christine Helm Vole, a esposa de Leonard e “testemunha de acusação”. Elsa Lanchester (1902-1986) faz o papel da Srta. Plimsoll, a severa enfermeira do velho e irascível advogado Sir Wilfrid Robarts, QC (sigla para Queen Counselor, distinção de mais alto grau para um advogado), personagem de Charles Laughton (1899-1962). Laughton e Lanchester, curiosamente, foram, na vida real, marido e mulher. A meu ver, sem desmerecer a interpretação dos demais atores (sobretudo de Elsa Lanchester, indicada ao Oscar como melhor atriz coadjuvante), é Charles Laughton, no papel de Sir Wilfrid Robarts, quem domina o filme. Indicado ao Oscar de melhor ator (vencido por Alec Guinness pelo papel de Coronel Nicholson em “Ponte do Rio Kwai”), ele é o advogado carismático, tão comum nesse tipo de filme, que, enfrentando a estranha “testemunha de acusação” e a própria enfermeira, cômica e brilhantemente salva o inocente acusado (no caso, apenas aparentemente inocente) de uma injusta condenação.
Apesar dos traços cômicos, que dão um tom único ao filme, “Testemunha de Acusação” é, antes de tudo, uma reverência ao que o Direito – no caso, o Direito inglês – tem de melhor. Na adaptação de Billy Wilder, a sala de audiência na “Old Bailey” é um lugar majestoso, que transpira tradição e é frequentado por grandes homens. Charles Laughton/Sir Wilfrid Robarts, a “velha raposa”, consegue absolver Leonard Vole apenas para descobrir, imediatamente após o veredicto, que o acusado era realmente culpado. A reação do velho advogado é: “Vole, você brincou com a lei inglesa”, um pecado mais “grave” que o próprio homicídio. Leonard Vole, que revela estar de caso com uma mulher mais nova, é, em seguida, fatalmente esfaqueado por sua esposa, a “testemunha de acusação”. E o filme termina com Charles Laughton/Sir Wilfrid Robarts prometendo defender a esposa/testemunha traída, mostrando sua crença na Justiça e no sistema legal inglês.
Para além do roteiro engenhoso (do qual Billy Wilder é também um dos autores), “Testemunha de Acusação” é cheio de cenas inesquecíveis. É antológica a cena em que, a partir de uma troca proposital de garrafas de chocolate e conhaque, se vê Sir Wilfrid Robarts (que ainda convalesce após muitos dias de hospital e está proibido de fumar e beber), em plena audiência, bebendo o destilado francês, enquanto sonsamente cumprimenta sua satisfeita e enganada enfermeira. O diálogo entre o juiz e a testemunha surda, que afirma não estar escutando bem o que se está falando, é também sensacional. O juiz apenas afirma algo como: “tendo em vista o que se diz por estes dias, é muita sorte sua”. Pensem numa afirmação perfeitamente aplicável aos nossos dias.
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